Tenho medo de falhar
A memória, está meia perdida
Mas gostava de vos contar
Passagens da minha vida.


Perdi o pai aos sete anos
Que grande infelicidade
Sofri muitos desenganos
Nessa minha mocidade.


Fazia quanto eu podia
Fui muito crucificado
Não falhava nem um dia
A correr atrás do gado.


Fosse verão, ou fosse inverno
Com chuva a cair nas orelhas
A minha vida era um inferno
Para guardar, cabras e ovelhas.


Um dia, no mês de Janeiro
Com chuva de molha tolos
Deixei abalar um cordeiro
Na boca de um grande lobo.


Depois, ainda foram mais dois
Embora, um de cada vez
Fui-os contando, e depois
Verifiquei que foram três.


Depois tive outra profissão
Passei então a ser moleiro
Passava quase todo o verão
No moinho, junto ao ribeiro.


Passava o cereal para o moinho
Para cima, levava a farinha
Andava quase sempre, sozinho
Vejam bem que vida a minha.


Mais tarde, fui serrador
Amais um amigo meu
Desde manhã ao sol pôr
Triste fado, Deus me deu.


De pedreiro, também trabalhei
A pesar de pouco saber
Se caiu algum muro não sei
Ninguém, me veio dizer.


Depois fui para a vida militar
Passei uma vida normal
Estava farto de os aturar
Mas, não saí de Portugal.


Em Março de cinquenta e seis
Entrei, para cantoneiro do estado
Se apreciarem bem, vereis
Como foi o meu passado.


Tinha como director
Um homem de bom coração
Que me disse, o senhor
Vai mudar, de profissão.


Quero que vá trabalhar
Com a profissão de motorista
Pensou bem em me ajudar
As coisas, estão bem à vista.


A profissão de motorista dava mais
Mas eu nunca tive vaga no quadro
Mas, ele punha os ordenados iguais
Tirava o dinheiro, doutro lado.


Algum tempo se passou
Até tive uma vida boa
Depois a mando dele, lá vou
Para a portagem para Lisboa.


O primeiro bilhete lá vendi
Por ordem do Salazar
Mas algumas coisas lá vi
Que me faziam revoltar.


Havia lá engraxadores sem caixa
Digo isto porque é verdade
Usavam daquela graxa
Que envenena, a sociedade


Resolvi perguntar se havia
Trabalho, para mim em Viseu
Como era isso que eu queria
Faço as malas, e lá vou eu.


Ao chegar lá, tive uma surpresa
Deu-me tristeza sem fim
O director era outro; e, conserteza
Visto por mim, bem mais ruim.


Quem o conheceu, sabe bem
Que ele era diferente, do primeiro
Não castigava ninguém
Mas dava-me pouco dinheiro.


Um dia, falei-lhe ao ouvido
Desse-lhe, aqui não tenho esperança
E estou mesmo, resolvido
A deixar isto, e ir para França.


Deixei sete filhos e a mulher
Foi bem triste a despedida
Não pode ter o que quer
Quem quer governar a vida.


Vinte e dois meses trabalhei
E, era quase, noite e dia
Bom dinheiro lá ganhei
Mas do corpo, me saia.


Um belo dia pensei
Aqui, não estou nada mal
Mas com o dinheiro que ganhei
Vou-me já para Portugal.


Pensei eu, cá para mim
Aqui morro de saudade
Deixo de ganhar dinheiro, mas enfim
Ele não me dá felicidade.


Quando cheguei a Portugal
Trabalho não me faltava
Mas a vida correu mal
O patrão só prometia, mas não dava


Eu sempre pensei em fazer
As vontades aos patrões
Mas com aquele, não podia ser
Tive grandes desilusões


É verdade, o que eu vou dizer
Ele pregou-me grandes partidas
Até cheguei a fazer
Cinquenta e seis horas, seguidas


Fez-me sempre muitas promessas
Deu-me sempre, muita graxa
Mas, fez-me tudo ás avessas
Nunca, me meteu na caixa.


Saí dele, e fui trabalhar
A vender carros, e tractores
Não me queria estar a gabar
Mas, negociei, com muitos senhores.


Depois disso, fui trabalha
Como louvado, das finanças e, do tribunal
Tal emprego, não posso gabar
Pois, eles pagavam tarde e, mal.


Pensei no antigamente
Como a vida era tão dura
Vivo feliz e contente
A trabalhar, na agricultura.


Para dizer a verdade
Fiz bem, em tomar essa atitude
Mas por minha infelicidade
Eu tenho pouca saúde.


Ando sempre, a lamentar-me
Que raio de feitio o meu
Eu devia era lembrar-me
De quem está pior que eu.


Vou-me tentar convencer
Que, até vivo muito bem
Pois é bem fácil de ver
Que problemas, todos têm.


Vou voltar ás profissões
Depois, dar a despedida
Levei grandes encontrões
Nestes meus anos de vida.


E tenho andado a pensar
Que para melhor, não irei
Embora este mundo, eu vá deixar
Melhor de que o encontrei.


Para alguns, está muito ruim
Para outros, está bom demais
Isto é, visto por mim
Estas afirmações são reais.


Eu queria mais igualdade
No trabalho e, nas regalias
Queria ver menos falsidade
E vejo muita, todos os dias.


Por hoje vou terminar
Tomo já essa atitude
Só vos quero desejar
Paz, dinheiro e muita saúde.


09/10/16 Graciano Teixeira.

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